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sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Roberto Ivens para além dos Açores - III

(Cont.) Todavia, este projecto de reconhecimento nasce sob os auspícios da Sociedade de Geografia de Lisboa, fundada pelo escritor, historiador e geógrafo Luciano Baptista Cordeiro de Sousa, a 10 de Novembro de 1875, com um grupo de 74 subscritores que requereu ao rei D. Luís a criação desta Sociedade tendo como missão promover o estudo das ciências geográficas e correlativas no país.
É de salientar, entre os subscritores, alguns nomes que deixaram o seu cunho bem vincado na História de Portugal: António Enes, Eduardo Coelho, Manuel Joaquim Pinheiro Chagas, Sousa Martins, Cândido de Figueiredo, António Lino Netto e Teófilo Braga. Este último, também natural de Ponta Delgada (São Miguel, Açores), foi o segundo Presidente da República Portuguesa.
Entre conferências, prelecções, cursos livres, concursos e congressos científicos promovidos pela Sociedade, esta cria a “Comissão Nacional Portuguesa de Exploração e Civilização da África”, conhecida por “Comissão de África”.
A Sociedade de Geografia de Lisboa nasce com a necessidade de fortalecer os laços e o interesse pelas terras africanas.
Portugal vivia uma época quente, no que concerne à exploração africana, essencialmente na região que foi denominada de “Mapa Cor-de-rosa”.
A preocupação de Portugal em se impor em terras africanas aumenta com a Conferência de Berlim realizada em 1884 e 1885.
Os países europeus começavam a promover, através de sociedades de geografia, uma política de exploração geográfica com especial destaque para territórios africanos.
Países como a Alemanha, a Bélgica, a Espanha, a França e mesmo a Itália, que nunca se interessaram pela exploração africana, começaram a cobiçar aquele Continente quando entenderam a força que poderia dar a riqueza existente no mesmo.
A Sociedade de Geografia em Portugal nasce tarde, a 10 de Novembro de 1875, visto que a maioria das sociedades de geografia europeias tinham nascido no início do século XIX, tendo desde o início, começado por desenvolver trabalhos de exploração, tanto geográfica como científica.
É óbvio que estas explorações começaram a chamar a atenção dos poderes políticos para a mais-valia da possibilidade económica que daquele Continente poderia advir. É com esse objectivo que a Sociedade promove a sua primeira expedição com Serpa Pinto, Hermenegildo Capello e Roberto Ivens, apostando na exploração do rio Cuango, a região das origens dos rios Zambeze e Cunene, assim como a
das bacias hidrográficas do Cuanza e do Cuango.
A famosa viagem “De Benguela às Terras de Iaca” teve início a 7 de Julho de 1877, tendo esta sido o patamar que fez de Roberto Ivens e de Hermenegildo Capello verdadeiros heróis. Após o trajecto Benguela – Bié, divergências entre Serpa Pinto e Hermenegildo Capello fazem com que a expedição seja dividida. Serpa Pinto, por iniciativa própria, entende fazer outro percurso, tendo este sido um fracasso. Contudo, Serpa Pinto chega a Pretória e mais tarde a Durban.
Enquanto isso, Ivens e Capello seguiram o projecto que haviam delineado inicialmente, isto é, não desviar a atenção para as bacias hidrográficas do Zaire e do Zambeze. Entre Benguela e as Terras de Iaca delimitaram os cursos dos rios Cubango, Luando e Tohicapa.
Após missão cumprida, Ivens e Capello são recebidos a 1 de Março de 1880, em Lisboa, como autênticos heróis.
Roberto Ivens recebe a Comenda da Ordem Militar de Santiago e é nomeado, a 19 de Agosto de 1880, vogal da Comissão Central de Geografia. Por Decreto de 19 de Janeiro de 1882, foram-lhe concedidas honras de Oficial às Ordens e a 28 de Julho foi nomeado para proceder à organização da Carta Geográfica de Angola.
Em 19 de Abril de 1883, pelas mãos de Manuel Joaquim Pinheiro Chagas, Ministro de Marinha e do Ultramar, ambos os exploradores são nomeados vogais da Comissão de Cartografia. (Cont.).
Fotografia - Escola Básica Roberto Ivens, Ponta Delgada, Ilha de São Miguel, Açores
Adélio Amaro

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Roberto Ivens para além dos Açores - II

(Cont.) Breakspeare Ivens, com a nova gravidez de Margarida Júlia, sente a obrigação de arranjar um novo lar para, agora, acolher as duas crianças, assim, como a tia Ana Matilde e uma empregada, na Rua Nova do Passal, em Ponta Delgada.
Mesmo antes do nascimento do segundo filho, Duarte Ivens, o inglês Breakspeare Ivens reconhece a paternidade do Roberto que aos três anos de idade perde a mãe vítima de tuberculose.
O jovem Roberto Ivens, usufruindo do estatuto social da família Ivens, permanece em Ponta Delgada e frequenta a Escola Primária do Convento da Graça, onde em pouco tempo, recebe a alcunha de “Roberto do Diabo” devido a um conjunto de traquinices onde habitualmente se envolvia.
Em Agosto de 1858 Roberto Ivens e o seu irmão Duarte são levados pelo pai, que havia casado, para Faro, no Algarve.
Três anos mais tarde, Roberto Ivens é inscrito na Escola de Marinha, em Lisboa, onde concluiu os estudos que o capultaram para uma carreira de sucesso como Oficial de Marinha.
Como estudante, embora aplicado e com uma inteligência fora do comum, nunca perdeu a sua face de jovem divertido, aproveitando os seus dotes musicais para animar os seus colegas ao som de uma guitarra.
Com apenas 20 anos Roberto Ivens terminou o curso de Marinha em 1870, com as mais elevadas classificações tendo ainda, frequentado em 1871, a Escola Prática de Artilharia Naval, partindo em Setembro desse mesmo ano para a Índia, pelo Canal do Suez, integrando a guarnição da Corveta Estefânia, onde é feito Guarda-Marinha.
No ano seguinte, contacta regularmente com Angola.
A 10 de Outubro de 1874 completa os três anos de embarque nas colónias, regressando a Portugal.
No mês de Janeiro, de 1875, faz exame para Segundo-tenente fora da barra de Lisboa e, em Abril do mesmo ano, segue na corveta Duque da Terceira para São Tomé e Príncipe e, posteriormente, para os portos da América da Sul. De regresso, em Abril de 1876 parte, no mesmo mês, no Índia para Filadélfia, com produtos portugueses para a Exposição Universal daquela cidade. De volta a Lisboa, Roberto Ivens tem conhecimento do plano governamental de exploração científica no interior de África com o objectivo de explorar os territórios entre as províncias de Angola e Moçambique, de forma a tornar real um reconhecimento geográfico das bacias hidrográficas do Zaire e do Zambeze.
Sonhando com a oportunidade de levar a efeito o desejo de descobrir e estudar o Continente Africano, Ivens não perde a oportunidade e oferece os seus préstimos para fazer parte dessa exploração.
Todavia, Roberto Ivens sabia da demora que poderia levar até conseguir uma resposta positiva. Assim, numa forma de antecipação, pediu para servir na Estação Naval de Angola.
Desta forma, de regresso a Angola, Ivens aproveitou para fazer vários reconhecimentos, principalmente no rio Zaire, levantando uma planta do rio entre Borud e Nóqui.
Finalmente, em 1877, por Decreto de 11 de Maio, Roberto Ivens é nomeado para dirigir a expedição aos territórios compreendidos entre as províncias de Angola e Moçambique e estudar as relações entre as bacias hidrográficas do Zaire e do Zambeze. Na mesma data foi promovido a Primeiro-tenente.
Nos três anos seguintes, Roberto Ivens fez parte da exploração científica de Benguela às Terras de Iaca na companhia de Hermenegildo Capello e também de Serpa Pinto.
A grande aventura de Benguela às Terras de Iaca, foi dirigida por Capello, grande conhecedor científico do território angolano, tendo o Major do Exército Serpa Pinto e o Oficial de Marinha Roberto Ivens como companheiros. (cont.).
Fotografia da Igreja da Fajã de Cima, concelho de Ponta Delgada, onde Roberto Ivens foi baptizado.
Adélio Amaro

Roberto Ivens para além dos Açores - I

Corria o ano de 1850 quando, em Portugal, é promulgada a legislação contra a liberdade de imprensa, conhecida pela "Lei das Rolhas".
No auge do século XIX, nesse mesmo ano, a 12 de Junho, nasce no número 24 da Rua de Ana Godinha, actual Rua do Meio, da freguesia urbana de São Pedro, concelho de Ponta Delgada, Ilha de São Miguel no Arquipélago dos Açores, Roberto Ivens.
Este grande Açoriano nasce no mesmo ano em que é fundada a cidade brasileira Blumenan, no Estado de Santa Catarina, um dos territórios do Brasil que mais Açorianos recebeu nos séculos XIX e XX.
O ano de 1850 fica marcado, entre muitos outros, pelo nascimento de dois grandes portugueses: Abílio de Guerra Junqueiro e Francisco José Ribeiro de Vieira e Brito. O primeiro foi um grande amigo do micaelense Antero de Quental e o segundo teve fortes ligações ao Arquipélago Açoriano, sendo o 30.º Bispo da Diocese de Angra.
Ainda em 1850, a 27 de Janeiro, nasce o inglês Edward John Smith que viria a ser conhecido como o capitão do RMS Titanic quando este se afundou, em 1912.
Todavia, Roberto Ivens acaba por ser uma das figuras dos Açores com mais destaque no século XIX, sem esquecer o já citado Antero de Quental.
Ora, este apontamento apresenta apenas alguns traços da vida, sempre em risco, de Roberto Ivens que além dos Açores, cravou o nome de Portugal no seu peito e por ele “conquistou” África do Atlântico ao Índico.
Roberto Ivens conseguiu, depois de vários estudos, unir, por terra, Angola a Moçambique, tendo como companheiro Hermenegildo Capello.
Assim, este artigo é apenas um humilde e superficial texto sobre a vida de Roberto Ivens, grande Açoriano excelentemente retractado por alguns autores, onde não se pode deixar de referir o mestre Manuel Ferreira, outro grande Açoriano que muito tem feito pela Cultura e pela História dos Açores.
Roberto Ivens nasce de um amor escondido, entre a micaelense Margarida Júlia de Medeiros Castelo Branco, uma jovem de 18 anos, oriunda de uma família de parcos recursos, e o inglês Robert Breakspeare Ivens, de 30 anos, filho do comerciante inglês William Ivens, residente em Ponta Delgada desde 1800.
Robert Breakspeare Ivens era bisneto materno de Thomas Hickling, um abastado comerciante de origem norte-americana, vice-cônsul dos Estados Unidos da América em Ponta Delgada, para as ilhas de São Miguel e Santa Maria, em 1795, vindo pela mão de Thomas Jefferson, então Secretário de Estado dos Estados Unidos da América.
Sendo fruto de uma ligação amorosa, proibida, de pais solteiros, Roberto Ivens nasce numa casa alugada por Robert Breakspeare Ivens. Entretanto, Margarida Júlia de Medeiros Castelo Branco é deserdada e expulsa definitivamente por seu pai.
O recém-nascido acaba por ser baptizado, às escondidas, como filho de pai incógnito, a 7 de Agosto de 1850, na ermida de Nossa Senhora da Oliveira, na freguesia da Fajã de Cima, Concelho de Ponta Delgada. Roberto Ivens foi levado à Pia, para receber o Sacramento do Baptismo, por Ana de Jesus, parteira daquele lugar, sendo baptizado pelo Cura daquela igreja, tendo como padrinho o irmão do Vigário. (cont.)
Adélio Amaro

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

“Roberto Ivens para além dos Açores”

A Associação de Investigação e Cultura dos Açores/Leiria (AICA/L) iniciou uma colecção de cadernos intitulada "Pessoas e Lugares", tendo o primeiro número destacado a grande figura açoriana que foi Roberto Ivens. Este ao lado de Hermenegildo Capello tornaram-se os primeiros portugueses a atravessar o Continente Africano de costa a costa.
Os seguintes dois números são sobre o Visconde do Amparo, uma das figuras da sociedade leiriense do século XIX e Ernesto do Canto, outro grande açoriano, que em pleno século XIX conviveu com grandes figuras de Portugal e conseguiu constituir a maior biblioteca sobre os Açores, actualmente património da Biblioteca Municipal de Ponta Delgada.
No primeiro volume é possível conhecer um pouco do percurso da vida de Ivens que em jovem saiu de São Miguel para o Continente.
Oficial da Armada, tornou-se uma das figuras portuguesas mais notáveis do século XIX, estando no meio do conflito sobre o célebre Mapa Cor-de-rosa.